terça-feira, 2 de setembro de 2014

A memória que se inventa

A evocação de tempos passados sempre me agradou. Talvez por tentar entender o que se passou antes da minha existência, me tenha levado a seguir História e a procurar nos que me antecederam respostas para o meu presente. Se penso que isto é errado e aquilo é certo é porque os me antecederam me deram uma cultura e uma visão do mundo que me moldou e molda. Ninguém nasce livre e inocente, nascemos dentro de uma sociedade e de sua visão.

Mas nunca me senti confortável com a evocação do meu próprio passado e nunca dele tive saudades. Não porque a minha vida não tenha sido boa (foi) mas porque eu acredito que o melhor está sempre para vir e a felicidade está sempre no que iremos fazer. Não significa isto que não me lembre com saudades dos que já partiram ou que não recorde com carinho todos os bons momentos que partilhei com tantas pessoas. Mas transformar esses momentos no momento áureo da nossa vida, no pico máximo da felicidade que já passou e nunca mais podemos voltar a ter, é viver de memórias e perder o futuro. Até porque tantas vezes nos esquecemos que esses momentos bons também foram antecedidos de coisas más ou nem sequer foram assim grande coisa. E quando vejo nas redes sociais uma foto do passado e alguém a comentar “ saudades ou momentos únicos” não deixo de pensar se os momentos foram assim tão bons  e se as saudades não podem ser colmatadas com um café, um almoço ou apenas um telefonema. Porque é tão prático evocar o passado mas não fazer um esforço para estar no presente. Uma foto é bonita mas nada substitui a presença física, o beijo e o abraço. Nada.

E entre um like no face ou um beijinho em mim, eu escolho o presente. Venham beijos e abraços. Venha o presente e o futuro.Venham novas memórias, novos amigos, novos momentos sempre e sempre e sempre.

"Vivo sempre no presente. O futuro, não o conheço. O passado, já o não tenho."

Fernando Pessoa, Livro do Desassossego.

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